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COVID-19: Em defesa da calma no meio da tempestade


Com a pandemia do COVID-19, as lideranças do mundo todo foram colocadas à prova. Empresários, políticos, personalidades públicas e até mesmo celebridades se veem em xeque: como marcar posição num momento em que tudo o que parecia sólido desmancha no ar?


Muito embora a discussão política venha à tona, talvez seja o momento para observar outro detalhe, igualmente importante: como é que as decisões mais importantes são tomadas? Contradição à vista: o senso comum garante que as decisões são tomadas com base na razão. As pesquisas mais recentes, no entanto, sustentam o contrário.


Daniel Kahneman é economista e vencedor do prêmio Nobel de economia no início dos anos 2000. Ele é um dos principais nomes da economia comportamental – e um dos pontos que chamam mais a atenção de seu trabalho reside na dinâmica da tomada de decisão. O economista observa que as deliberações nem sempre se fundamentam num processo racional. E esse é o argumento central do livro Rápido e devagar – duas formas de pensar, publicado no Brasil pela editora Objetiva.


Mesmo antes da pandemia, a obra de Kahneman já estava, há muitos anos, entre os best-sellers mundiais. Em linhas gerais, o economista explica que existem duas formas de pensar: a primeira, rápida, organiza-se conforme a intuição e a emoção dos decisores; a segunda, lenta, mais deliberativa e lógica.


Com a pandemia, o trabalho de Kahneman ganha relevância porque mostra que as decisões precisam ser estudadas – e isso afeta tanto a iniciativa privada quanto a administração pública.


E aqui é o caso de citar a experiência de um líder que também viveu tempos extraordinários.


Colin Powell, faz alguns anos, publicou uma espécie de continuação de seu livro de memórias. Se em My American Journey, ele narra como é que se tornou uma referência para as forças armadas dos EUA, tendo servido em missões igualmente diversas e complexas, em “It Worked For Me – in Life and Leadership”, o ex-secretário de Estado destaca quais foram as principais lições que ele aprendeu quando era um dos nomes centrais da cadeia de comando. É, de fato, uma pena que o livro não tenha sido editado no Brasil, sobretudo porque, nesse momento, poderia ser de grande ajuda para quem precisa fazer escolhas difíceis.


E é justamente aqui que se nota um ponto de contato entre as lições aprendidas por Colin Powell e o estudo de Daniel Kahneman. Logo no início de “It Worked For Me”, Powell apresenta um receituário de 13 regras que ele adotava quando estava em posições de comando.


A primeira regra parece ser indicada para o exato momento em que vivemos.


“Não é tão ruim quanto parece. Vai melhorar pela manhã”.


Ok, estamos no centro de uma pandemia e com uma perspectiva de crise econômica sem comparação na história recente. Os indicadores de atividade econômica mostram isso. A expectativa dos empresários antecipa isso. Quão longa pode ser essa jornada no meio da noite?


A resposta não está dada de imediato, está claro. Mas o convite à reflexão mais demorada, que aqui pode ser acalentada pela metáfora da noite, sugere o seguinte: tomar decisões importantes quando se está pressionado pode não ser produtivo. Ou à moda Kahneman: optar pela deliberação lógica faz toda a diferença.

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