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A excelência como patrimônio histórico: a Seleção Brasileira de 1970


Pelé, seguido de Tostão na Copa de 70, em foto de Tony Balis

Por Fabio Silvestre Cardoso*, especial para a Microexato


Nelson Rodrigues escreveu que, no Brasil, vaia-se até o minuto de silêncio.


Se tomarmos essa afirmação como ponto de partida, não espanta o fato de que, por aqui, a onda de vandalização dos monumentos tenha começado muito antes do que se tem visto mundo afora. A depredação mais substantiva aqui é simbólica: referências históricas, culturais e imateriais são demolidas sem qualquer cerimônia. Cancelamos tudo, sem perguntarmos se, verdadeiramente, deveríamos agir assim.


Ocorre que, em meio à pandemia de coronavírus, não só os estabelecimentos comerciais foram fechados. Como se sabe, as programações das emissoras de TV, aberta e a cabo, também foram descontinuadas. Resultado: uma onda de reprises. Séries, filmes, telenovelas e até mesmo jogos de futebol colocaram em xeque essa nossa difícil relação com o passado glorioso.


Glorioso? Sim, glorioso. Na TV, ao menos por alguns instantes, quando olhamos para o passado, era como se vislumbrássemos que o Brasil já foi feliz. E já foi grande. Não só pela sua economia, mas pelos seus feitos, exatamente em segmentos onde não havia qualquer sombra de dúvida – e que hoje sobram questionamentos –, a produção cultural e o esporte de alto rendimento.


Novela e Futebol

Assim, se, nas telenovelas, já existiu um Brasil que se encontrava todas as noites, no futebol havia consenso em torno da relevância do futebol brasileiro no mundo. Aliás, é de se perguntar: qual outro país tem tantos jogos com conquistas da sua seleção nacional para exibir? Lembro-me de ter visto os ingleses eufóricos em 2018 porque chegaram em quarto lugar na Copa do Mundo pela primeira vez em 28 anos; no mesmo período e no mesmo torneio, o Brasil chegou a três finais, venceu duas e, quando eliminado, foi derrotado pelos finalistas – exceção feita a 2018, quando perdeu para a Bélgica, que ficou em terceiro lugar.


O que isso significa? Simples: valorizamos a derrota, porque há um fracasso que nos enche de brio e de virtude, enquanto as vitórias são contestadas ou, ainda, minoradas pelas brumas do esquecimento. E é aqui que chegamos à Seleção da década de 1970.


Aquela Seleção Brasileira – de Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino – sagrou-se campeã com um futebol que afetou para sempre a imaginação daqueles que adoram esse esporte. Foi o nosso melhor momento e, talvez por isso, foi o início de nossa derrocada.


Dali em diante, houve tentativas, a mais amarga delas em 1982, de reviver aquele momento mágico. Só que, num misto de tragédia e farsa, o Brasil foi derrotado pela mesma Itália em Barcelona, na Copa do Mundo da Espanha. O país jamais se recuperou desse trauma e, por isso mesmo, não foi capaz de se reconciliar com suas conquistas.


Excelência e desejo pela vitória

Ganhar passou a ser um estorvo inferior apenas à derrota, que era sempre um vexame. A comparação é com 1982, o ano que deveria ter marcado a vitória redentora: tetra com a volta da democracia. Não foi o que houve. O gosto de sangue jamais saiu da boca e a lembrança que muitos ainda carregam daquele choro mostra que a paz e a tranquilidade são ativos de alto valor agregado num mundo onde a dor e o ódio são commodities.


Com a Seleção de 1970, aprendemos que a excelência e o desejo pela vitória podem nos contagiar. Em meio a tanto desalento e desesperança, vale a pena ver de novo – para se emocionar e para guardar no chalé da memória alguns dos momentos dos quais podemos nos orgulhar.



*Fabio Silvestre Cardoso é jornalista, doutor em Integração da América Latina pela USP e mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi, onde também é professor. É autor do livro Capanema, lançado pela Editora Record. Linkedin

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