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Microexato + Autismo – Entrevista com Caio Abujadi – Parte 02/02

Atualizado: Mai 11



Entrevista com Caio Abujadi

Por Fabio Silvestre Cardoso*, especial para a MextMag

“As pessoas acham que é um problema de comportamento”, afirma psiquiatra

Na segunda parte da entrevista (leia a primeira parte) com o médico e psiquiatra Caio Abujadi, o especialista analisa as diferenças dos quadros diagnósticos do autismo, destacando, portanto, as características dos casos mais leves assim como dos casos mais graves. Abujadi ressalta, ainda, a importância das referências teóricas para que as melhores práticas sejam encaminhadas a quem precisa e afirma que, no Brasil, ainda estamos longe do ideal para que se possa oferecer tratamento de qualidade, em que pese os esforços recentes nessa direção.

Caio Abujadi é médico e psiquiatra e um dos fundadores da Associação Caminho Azul, instituição criada com o propósito de promover atividades de assistência às crianças e aos indivíduos carentes e às suas famílias. 

A seguir, a segunda parte da entrevista.

MextMag – Do ponto de vista do quadro clínico, comenta um pouco a propósito das diferenças entre os quadros mais leves e dos casos mais graves.

Caio Abujadi Atualmente, os manuais diagnósticos classificam os quadros mais leves e os quadros mais graves por dois parâmetros: o desenvolvimento da linguagem – sem linguagem, com dificuldade grave na linguagem, com dificuldade moderada na linguagem, com dificuldade leve na linguagem e sem dificuldade na linguagem. O segundo parâmetro: cognição, na inteligência, na resposta cognitiva. Nós chamamos de funcionalidade: baixa funcionalidade, moderada funcionalidade e alta funcionalidade. São norteadas por esses dois parâmetros.

MextMag – Quais deveriam ser os parâmetros básicos para atender essa população crescente nessa condição?

Caio Abujadi – A primeira coisa é o diagnóstico. Nós precisamos ter centros diagnósticos. E nós precisamos de pediatras, que são que fazem puericultura. Na maior parte das vezes, os sintomas começam a aparecer por volta do primeiro ano de idade – enquanto nos casos mais graves, costuma aparecer antes, nos casos mais leves, entre o primeiro e o segundo ano surgem os primeiros sintomas, quando as crianças não estão desenvolvendo a fala ou estão apresentando algumas regressões. O diagnóstico é muito importante. Depois, precisamos de equipes multidisciplinares médicas para gerenciar, porque esses pacientes têm alterações multissistêmicas, então, eles vão sofrer alterações gastrointestinais, endocrinológicas, imunológica, psiquiátricas, neurológicas. Desse modo, equipes multidisciplinares são fundamentais nesse processo. Infelizmente, o que temos hoje é que um médico tem de assumir tudo isso e é muito complicado, afinal, a medicina é bem ampla. Carecemos de equipes que possam receber essas crianças e fazer uma avaliação multidisciplinar médica e gerenciar esse quadro clínico. Os pacientes com autismo desenvolvem muito mais doenças clínicas do que quem não tem autismo. Quem tem autismo está muito mais suscetível a essas alterações – e por incrível que pareça os pacientes com autismo são aqueles que procuram menos os médicos. De um lado, quando crianças, os médicos têm dificuldade em fazer a avaliação em pacientes com autismo porque é necessária uma técnica especializada – afinal, eles são mais irritados e agitados, então, é fundamental um ambiente propício para recebê-los. Por outro lado, os pais têm medo de leva-los aos médicos e os pacientes não conseguem esperar. Com isso, eles só procuram os médicos quando não tem mais jeito, daí acaba indo pra Pronto Socorro, que não consegue receber direito. É bem difícil. Esse sistema clínico-médico precisa de uma formatação específica para receber essas crianças, e isso é algo que nós teremos de estudar como fazer, inclusive na rede pública, porque é algo não existe. 

A segunda coisa tem a ver com as redes de atendimento e de treinamento. São as terapias multidisciplinares: psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, musicoterapia, ecoterapia, fisioterapia, atividades esportivas, todos os processos de treinamento clínico, que envolvem a formação de conexões. Porque é através do treinamento que nós conseguimos fazer com que a conectividade e o desenvolvimento aconteçam – e isso inclui a parte pedagógica, também.

E o terceiro ponto é o da inclusão social, principalmente nas escolas, no ambiente acadêmico, no ensino técnico, universidades e no mercado de trabalho. O formato de treinamento de cérebro social precisa de ambientes sociais complexos, onde essas crianças são incluídas e onde elas possam treinar o cérebro social. Esse é o paradigma de muita dificuldade, porque os ambientes não estão prontos para recebê-los, precisam treiná-los, têm dificuldades, envolve seres humanos. E não existe ambiente mais eficiente para treinar o indivíduo quanto ao cérebro social do que os ambientes sociais. A escola é um exemplo disso, mas é preciso ter pessoas que saibam receber; é preciso ter familiares que estejam bem estruturados; os pacientes também necessitam de bons clínicos para ser incluídos; assim como especialistas dentro da escola, que nós chamamos de mediadores, para que eles possam ser treinados quanto ao contato com o ambiente, as regras sociais, o entendimento dos indivíduos.

MextMag – Nós temos bibliografia e aparato em termos de tratamento para dar conta desse aumento de casos?

Caio Abujadi – Não, estamos longe disso. Para você ter ideia, nesse trabalho de 2016, publicado no Pediatrics, desses 43 mil pacientes avaliados, 30% deles estavam sem nenhum tratamento. Isso nos EUA, onde existe tudo mais regrado e definido do que tem no Brasil. Então, nós devemos ter menos de 50% dos pacientes em tratamento hoje aqui no Brasil. Fora isso, sem diagnóstico. E essas pessoas são muito sensíveis aos ambientes, aos estresses. Então, essas pessoas estão nas escolas, nos trabalhos, muitas vezes diagnosticadas com outras doenças, porque estão com casos leves, então, passa um pouco despercebidas, são vistos com pessoas depressivas, bipolares, são vistas como pessoas que têm TOC ou que têm transtorno de personalidade. Eles nunca foram vistos como autistas. E aí eles estão sofrendo porque eles mesmos não se entendem. É complicado porque, muitas vezes, a família tem medo, daí quando vem o distúrbio, foge um pouco do tratamento. É muito angustiante para as famílias, sobretudo para as de baixa renda que não têm tanta informação. Isso escapa ao entendimento delas. A educação é no Brasil é muito complicada, e o entendimento das doenças psiquiátricas tem de superar um tabu muito grande. As pessoas acham que é um problema de comportamento, algo que não tem o perfil clínico. E aí o que acontece é que as pessoas acabam não indo atrás do que está acontecendo. O resultado disso é que as pessoas sofrem muito por falta de tratamento. Agora, vou dizer o seguinte. No nosso país, nós temos alguns centros, nas grandes cidades, que têm bons tratamentos, mas a maioria das cidades…

MextMag – Isso não representa a realidade do país?

Caio Abujadi Retomando uma resposta anterior, acho que aqueles três modelos precisam nascer. Eu sei que tem muita gente trazendo protocolos de fora do Brasil, mas ainda estamos longe de ter um formato que seja o ideal. Então, o formato multidisciplinar médico, o programa terapêutico e o programa de educação e inclusão precisam nascer para criarmos um projeto que possa abordar a maior parte das crianças e dos indivíduos com autismo.

Eu tenho percorrido o Brasil para tentar dar auxílio, tratamento, para estar junto das pessoas, ouvir, tentar auxiliar. Só que o que tenho visto é que existem lugares no Brasil onde não há nada disso. Nem mesmo os médicos estão atualizados nos conceitos mais importantes. Nós criamos uma Associação, que se chama Caminho Azul, que tem o objetivo de montar um centro para crianças carentes aqui no Rio de Janeiro, mas a Associação tem o propósito também de melhorar esse formato de educação e treinamento do autismo no Brasil todo. Nós temos criado programas em que as pessoas saem pelo Brasil todo para darem cursos gratuitos para médicos, terapeutas, professores, familiares. Neste ano, esse sistema de treinamento pelo Brasil vai começar a funcionar. Em 2019, nós inauguramos o Congresso Internacional de autismo, que tem dois eventos simultâneos: o evento para os familiares e o encontro de profissionais.

MextMag – Acontece quando?

Caio Abujadi – Em 2020, o Congresso acontece em agosto, de 20 a 22 de agosto. Será um grande evento, neste ano para duas mil pessoas. No ano passado, nós tivemos 400 médicos do Brasil inteiro e todo mundo gostou muito do evento. Agora, vamos tentar realizar um evento melhor ainda: com workshops, treinamentos para professores, para médicos, então, temos um momento de centralizar um acontecimento dessa natureza, onde todos podem aprender; nós gravamos o encontro familiar, que depois virou, inclusive, um canal no YouTube – e é possível ter acesso gratuito ao que aconteceu no ano passado. E o Congresso online as pessoas podem adquirir pelo site. E o importante: todo o dinheiro arrecadado vai para o fundo cujo objetivo é construir esse centro para as pessoas carentes.

MextMag – Além do evento, quais outras iniciativas da Associação Caminho Azul?

Caio Abujadi Neste ano, a agenda de treinamentos que vamos oferecer pelo Brasil já está fechada. Nós estaremos em vários lugares do Brasil: em São Paulo, no Rio de Janeiro, Manaus, Amapá. Através do site as pessoas podem pedir o treinamento. O curso é gratuito, apenas devem ser remuneradas as diárias dos palestrantes e as passagens daqueles que fazem os treinamentos. Já no Congresso Internacional, nós trazemos todo o pessoal de fora do Brasil. Os palestrantes são todos PhDs. Todas as pesquisas mais atuais são apresentadas aqui. Em 2020, Richard Frye, que trata dessa alteração bioenergética, estará pela primeira vez no Brasil. Ele é um dos principais pesquisadores na área de mitocôndria e medicina intracelular no autismo. Os israelenses responsáveis pelas últimas pesquisas de canabidiol também vão participar. Então, todos esses convidados são livre-docentes, pesquisadores qualificados, especializados em autismo. São 13 palestrantes internacionais. E nós tentamos trazê-los e apresentar essa informação, também, para que possamos captá-las e formata-las no protocolo brasileiro – para que essa informação possa ser divulgada.

*Fabio Silvestre Cardoso é jornalista, doutor em Integração da América Latina pela USP e mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. É autor do livro Capanema, lançado pela Editora Record. Linkedin

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