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Por que o filme “Indústria Americana” é um olhar para o futuro

Por Fabio Silvestre Cardoso*, especial para a MextMag

Ainda no começo de fevereiro, houve grande comoção nacional em torno do Oscar. Numa safra de filmes marcados pela crítica social e pela agenda política num mundo polarizado, não faltou quem torcesse a favor e contra o documentário “Democracia em Vertigem”, que conta a história do impeachment de Dilma Rousseff segundo o olhar da cineasta Petra Costa. Por um motivo de escolha, nós não vamos falar de perdedores; antes, dos vencedores.

E o vencedor, neste caso, foi “American Factory”, um original Netflix de Julia Reichert e Steven Bognar, que conta a história de uma fábrica chinesa que vai se estabelecer em solo norte-americano, mais precisamente em Dayton (Ohio), uma das cidades que simbolizam a debacle da indústria automobilística e também da crise econômica em 2008. O documentário, aliás, começa exatamente com uma cena que remonta à crise de 2008, mas logo vai para 2015, quando a Fuyao, que produz vidro na China, decide marcar território nos EUA. A partir dali, como diz a canção, nada será como antes.

Pode parecer um lugar-comum, mas os norte-americanos estão habituados a um modelo de produção que dá conta do respeito às condições mínimas de trabalho e também com um status de bem-estar e cuidado que não fazem parte do modus operandi chinês. O lugar-comum aqui tem a ver, a um só tempo, com o choque cultural e o choque de gestão. No que se refere ao aspecto cultural, vale a pena ressaltar que os hábitos e o modelo organizacional dos chineses vão além da dedicação e do comprometimento ao qual os norte-americanos estão habituados, uma vez que a lógica do trabalho se baseia não na dinâmica da recompensa emocional, mas no envolvimento quase orgânico com os ditames da organização. Já no que tange ao modelo de gestão, rapidamente os norte-americanos percebem que estão lidando com outro tipo de exigência e demanda, e os resultados que são cobrados representam um verdadeiro aprendizado para aqueles que começam a entender o que está acontecendo. Sim, é uma transição para outro patamar, do qual não é possível retornar depois.

Sem sombra de dúvida, um dos pontos centrais do filme tem a ver com a mentalidade em torno das relações de trabalho. Aqui, se o espectador tiver interesse e disposição, é bastante possível ingressar num embate ideológico – e, de fato, há um longo caminho de leituras e outras referências culturais que se conectam com esse documentário. Sem prejuízo dessa interpretação, outro entendimento pertinente em relação a “American Factory” diz respeito ao modo como a lógica e/ou dinâmica de trabalho se transformou nos últimos anos – e, ao que tudo indica, irá se transformar ainda mais nos próximos anos. Como escreveu Celso Ming, numa coluna para o Estadão na véspera da cerimônia do Oscar, como falar de trabalho num momento em que há uma transformação tecnológica de tal magnitude que irá abalar a maneira como nós experimentamos o trabalho? Sem dúvida alguma, essa pergunta já foi feita até mesmo por um dos principais autores de nosso tempo, Yuval Noah Harari (autor do best-seller “Sapiens”), mas ainda não temos resposta para isso.

É certo que nem todo mundo gostou do resultado do Oscar, ainda que o casal Obama, que produziu o documentário, tenha ficado bastante satisfeito com a vitória. Os documentaristas que levaram a estatueta, no palco do teatro Kodak, ecoaram a mensagem política: “workers of all world, unite”. Parece não restar dúvida, nesse caso, de que a agenda ideológica é dominante. É uma escolha. Assim como é a decisão de olhar para frente ou não. Afinal, alguém realmente imagina que os robôs não vão ocupar mais espaço no mercado de trabalho nos próximos anos? É o fim do mundo como conhecemos – só que, neste caso, não dá para saber se todos ficarão tão bem com o que está por vir.

*Fabio Silvestre Cardoso é jornalista, doutor em Integração da América Latina pela USP e mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. É autor do livro Capanema, lançado pela Editora Record. Linkedin

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